sábado, 8 de setembro de 2012


És linda. 
E nem sabes quantos pedaços de beleza 
tive de juntar para chegar a esta conclusão. 
Para te construir, 
tive de misturar a conspiração das searas 
com a tristeza do choupo, 
a inquietação da cotovia 
com o cheiro lavado do vento do ocidente. 
E a firmeza repartida dos livros, 
com a alegria explosiva dos miosótis 
e a luz escura das violetas. 

Juntei depois 
um pouco de ansiedade das estrelas, 
a paciência das casas à beira da falésia, 
a espuma da terra, o respirar do sul, 
as perguntas de gesso que se fazem à lua. 
Acrescentei-lhe a canção das margens 
e pequenos pedaços da angústia do olhar. 
Não esqueci a intimidade do frio 
nem a dor branca 
que habita o coração dos muros. 

Por fim, 
deitei na tua pele o sono dos alperces, 
aos teus músculos prometi a violência das cascatas, 
no teu sexo acordei a memória do universo. 

A tua beleza está no meu desejo, 
nos meus olhos, 
na minha desigual maneira de te amar. 

És linda, repito. 
Mas tenta não encarar 
o que te digo como um elogio. 

Joaquim Pessoa, 
in 'Ano Comum'

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