terça-feira, 1 de janeiro de 2013


O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro 
como impura é a luz e a água 
e tudo quanto nasce 
e vive além do tempo. 

Minhas pernas são água, 
as tuas são luz 
e dão a volta ao universo 
quando se enlaçam 
até se tornarem deserto e escuro. 
E eu sofro de te abraçar 
depois de te abraçar para não sofrer. 

E toco-te 
para deixares de ter corpo 
e o meu corpo nasce 
quando se extingue no teu. 

E respiro em ti 
para me sufocar 
e espreito em tua claridade 
para me cegar, 
meu Sol vertido em Lua, 
minha noite alvorecida. 

Tu me bebes 
e eu me converto na tua sede. 
Meus lábios mordem, 
meus dentes beijam, 
minha pele te veste 
e ficas ainda mais despida. 

Pudesse eu ser tu 
E em tua saudade ser a minha própria espera. 

Mas eu deito-me em teu leito 
Quando apenas queria dormir em ti. 

E sonho-te 
Quando ansiava ser um sonho teu. 

E levito, voo de semente, 
para em mim mesmo te plantar 
menos que flor: simples perfume, 
lembrança de pétala sem chão onde tombar. 

Teus olhos inundando os meus 
e a minha vida, já sem leito, 
vai galgando margens 
até tudo ser mar. 
Esse mar que só há depois do mar. 

Mia Couto,

in "idades cidades divindades"

sábado, 22 de setembro de 2012




“Medo do cheiro dos travesseiros.
Medo do cheiro das roupas.
Medo do cheiro nos cabelos.
Medo de não respirar sem recuar.
Medo de que o medo de entrar no medo
seja maior do que o medo de sair do medo.
Medo de não ser convincente na cama,
persuasiva no silêncio, carente no fôlego.
Medo de que a alegria seja apreensão,
de que o contentamento seja ansiedade.
Medo de não soltar as pernas das pernas dele.
Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir.
Medo da vergonha que vem junto da sinceridade.
Medo da perfeição que não interessa.
Medo de machucar, ferir, agredir para
não ser machucada, ferida, agredida.
Medo de estragar a felicidade por não merecê-la.
Medo de não mastigar a felicidade por respeito.
Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la.
Medo do cansaço de parecer inteligente
quando não há o que opinar.
Medo de interromper o que recém iniciou,
de começar o que terminou.
Medo do aniversário sem ele por perto,
dos bares e das baladas sem ele por perto,
do convívio sem alguém para se mostrar.
Medo de enlouquecer sozinha.
Não há nada mais triste
do que enlouquecer sozinha.
Você tem medo de já estar apaixonada.”

Fabricio Carpinejar



sexta-feira, 14 de setembro de 2012




Estou mais perto de ti
porque te amo.
Os meus beijos
nascem já na tua boca.
Não poderei escrever
teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte
e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos
mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca
aberta em minha boca.
E amo-te
como se nunca 
te tivesse amado
porque tu estás em mim
mas ausente de mim.

Nesta noite
sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo
para além dos meus dedos.
Trago as mãos
distantes do teu peito.

Sim, 
tu estás em toda a parte.
Em toda a parte.
Tão por dentro de mim.
Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti
porque te amo.

Joaquim Pessoa



terça-feira, 11 de setembro de 2012


Não vou pôr-te
flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir
a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas
amar-te lentamente
como se todo o tempo
fosse nosso
como se todo o tempo
fosse pouco
como se nem sequer
houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor
o teu ventre.

Joaquim Pessoa






O absoluto de tua ausencia

Minha voz caminha pelo espaço...
choca-se com as nuvens
esbarra-se nas estrelas
e estilhaça, de encontro ao sol.
E a vontade de te ver
continua habitando em meu ser.
Angustiando meu espírito,
nada existe constatando,
com o desespero e com a ausencia.
Teu corpo balança em minha mente.
Tão confusa e tão doente
E, já não vivo em mim...
No entanto é como se existisse
em meu destino a certeza fatal
de um alongado encontro.
E no corpo da noite,
o negro dos teus cabelos
Está ao sabor de um vento...
Que eu não sinto...
A noite está fria...
Terrivelmente fria
E eu caminho em vão pelas horas
Levando em mim
o absoluto de tua ausencia...

Renato Neves


Tu és...

"...Tu és todos os
sons de todo o silêncio,
Por isso eu te espero
Te quero e te penso.
Como uma ilha,
Sozinha..."

Pedro Abrunhosa



 
Sensual

Ainda sinto o teu corpo ao meu corpo colado;
nos lábios, a volúpia ardente do teu beijo;
no quarto a solidão, desnuda, ainda te vejo,
a olhar-me com olhar nervoso e apaixonado...

Partiste!... 
Mas no peito ainda sinto a ânsia e o latejo
daquele último abraço inquieto e demorado...
- Na quentura do espaço a transpirar pecado,
Ainda baila a figura estranha do desejo...

Não posso mais viver sem ter-te nos meus braços!
- Quando longe tu estás, minha alma se alvoroça
julgando ouvir no quarto o ruído dos teus passos...

Na lembrança revejo os momentos felizes,
e chego a acreditar que a minha carne moça
na tua carne moça até criou raízes!...

  ( J. G. de Araujo Jorge - coletânea -
in "Poemas do Amor Ardente" 1961 )